Protocolo de Síndrome da Bexiga Hiperativa

Elaborado por: Dra. Ana Paula de Oliveira Pinto

Atualizado em: Janeiro de 2025

Fonte: Diretrizes Internacionais e FEBRASGO

Uroginecológico

Protocolo de Manejo da Síndrome da Bexiga Hiperativa em Mulheres

Baseado nas Diretrizes da FEBRASGO e Sociedades Internacionais

Fonte: FEBRASGO Protocolo nº 51

Elaborado por

Dra. Ana Paula de Oliveira Pinto

Atualizado em

Janeiro de 2025

Introdução

A Síndrome da Bexiga Hiperativa (BH) é caracterizada pela urgência miccional - desejo súbito, não adiável e imperioso de urinar - geralmente acompanhada de aumento da frequência urinária e noctúria, na ausência de infecção ou outras patologias.

A incontinência urinária de urgência (urgeincontinência) está presente em cerca de um terço a metade das pacientes, caracterizando a BH molhada. Quando não há perda urinária, denomina-se BH seca.

A condição compromete significativamente a qualidade de vida, causando isolamento social, queda de produtividade, vergonha, frustração, ansiedade e baixa autoestima. Estudos brasileiros mostram que 25% das mulheres acima de 40 anos têm ou terão sintomas de BH, sendo que 80% não procuram ajuda especializada.

Fisiopatologia e Fenótipos

A BH é uma afecção crônica com fisiopatologia multifatorial. O reconhecimento dos diferentes fenótipos auxilia no tratamento individualizado:

Teorias Fisiopatológicas

  • Miogênica: Contrações involuntárias do detrusor
  • Uroteliogênica: Alterações na aferência do urotélio
  • Uretrogênica: Ativação aferente pela presença de líquido na uretra
  • Supraespinhal: Inibição cortical deficiente
  • Hipoatividade detrusora: Redução da capacidade vesical funcional

Cofatores Associados

  • Síndrome metabólica
  • Desordens afetivas (ansiedade/depressão)
  • Deficiência de esteroides sexuais
  • Alterações no microbioma vesical
  • Desordens gastrintestinais funcionais
  • Disfunção do sistema nervoso autônomo

Diagnóstico

Avaliação Clínica

  • Anamnese detalhada: Sintomas de urgência miccional (obrigatório), frequência, noctúria, urgeincontinência
  • Histórico: Doenças neurológicas, cirurgias prévias, medicamentos em uso
  • Exame físico: Avaliação neurológica do assoalho pélvico, distopias urogenitais, atrofia vaginal
  • Diário miccional: 1 a 3 dias - ferramenta fundamental para diagnóstico e acompanhamento

Investigação Complementar

Exames obrigatórios:

  • Urina tipo 1 e urocultura (para excluir infecção)

Exames conforme indicação:

  • Ultrassom do trato urinário e pelve
  • Citologia urinária (casos refratários ou hematúria)

Estudo urodinâmico (NÃO de rotina):

  • Sintomas mistos com dúvida diagnóstica
  • Casos neurogênicos
  • Pacientes refratárias ao tratamento convencional
  • BH após correção cirúrgica de IUE
  • Queixas relacionadas ao esvaziamento vesical

Tratamento

1. Tratamento Comportamental e Fisioterapêutico

Primeira linha de tratamento:

  • Orientações gerais: Ingesta hídrica adequada (1-2L/dia), redução de líquidos antes do sono
  • Modificações dietéticas: Redução de cafeína, bebidas gaseificadas, frutas cítricas, álcool
  • Treinamento vesical: Aumento gradual do intervalo entre micções (atingir 2-4 horas)
  • Exercícios perineais: Ensino de contração da musculatura do assoalho pélvico
  • Eletroestimulação: Eficácia variável, incluindo estimulação do nervo tibial posterior

2. Tratamento Farmacológico

Anticolinérgicos (Grau A):

  • Oxibutinina, Tolterodina, Darifenacina, Solifenacina, Cloreto de tróspio
  • Eficácia similar entre os diferentes agentes
  • Escolha baseada no perfil de efeitos colaterais
  • Cuidado especial em idosos (risco cognitivo)

Agonistas β3-adrenérgicos:

  • Mirabegrona 50 mg/dia
  • Eficácia similar aos anticolinérgicos com menos boca seca
  • Efeitos colaterais: boca seca (12%), hipertensão (5,5%)

Estrogênios vaginais:

  • Melhora significativa dos sintomas na pós-menopausa
  • Parte do manejo da síndrome urogenital da menopausa

3. Terapias de Terceira Linha

Toxina botulínica A (Grau A):

  • Indicada para casos refratários (falha de ≥2 esquemas farmacológicos)
  • Aplicação intraderusoriana com cistoscópio
  • Duração: 6-9 meses (necessidade de reinjeções)
  • Efeitos colaterais: infecção urinária (13-15%), retenção urinária (4-10%)

Neuromodulação sacral:

  • Implante de eletrodos na raiz nervosa S3
  • Reservado para casos graves refratários
  • Taxas de sucesso: 60-75%
  • Complicações: dor no implante, migração do eletrodo, infecção

4. Terapias Alternativas e Cirúrgicas

Terapias alternativas: Acupuntura, mindfulness, ioga, tai chi chuan - evidências limitadas, necessitam de mais estudos.

Tratamento cirúrgico: Opção de exceção (ampliações vesicais, derivações urinárias) para casos intratáveis.

Fluxograma de Conduta

flowchart TD A[Paciente com sintomas de BH] --> B{Avaliação inicial
e diário miccional} B --> C[Excluir infecção urinária] C --> D[Tratamento comportamental
e fisioterapêutico] D --> E{Melhora adequada?} E -->|Sim| F[Manutenção] E -->|Não| G[+ Tratamento farmacológico
Anticolinérgico ou β3-agonista] G --> H{Resposta satisfatória?} H -->|Sim| I[Manutenção por ≥6 meses] H -->|Não| J[Terapia combinada
ou troca de classe] J --> K{Controle adequado?} K -->|Sim| L[Manutenção] K -->|Não| M[Terapias de 3ª linha
Toxina botulínica ou neuromodulação] M --> N{Ainda refratária?} N -->|Sim| O[Avaliação para tratamento
cirúrgico excepcional] N -->|Não| P[Controle dos sintomas]

Medicamentos Disponíveis no Brasil

Medicamento Apresentação Dose Diária Posologia
Oxibutinina 5 mg 5-20 mg 1-4 comprimidos/dia
Tolterodina 4 mg 4 mg 1 comprimido/dia
Darifenacina 7,5 mg / 15 mg 7,5-15 mg 1 comprimido/dia
Solifenacina 5 mg / 10 mg 5-10 mg 1 comprimido/dia
Cloreto de tróspio 30 mg 30-45 mg 1 comp pela manhã + ½ à noite
Mirabegrona 50 mg 50 mg 1 comprimido/dia

Recomendações Finais

Conduta Recomendação Grau
Diagnóstico de BH Clínico, baseado em sintomas de urgência + frequência/noctúria A
Primeira linha de tratamento Terapia comportamental e fisioterapêutica A
Estudo urodinâmico Não indicado de rotina, apenas em casos específicos A
Anticolinérgicos Segunda linha, escolha baseada no perfil de efeitos colaterais A
Mirabegrona Alternativa com menos efeitos anticolinérgicos A
Terapia combinada Indicada quando resposta inadequada à monoterapia B
Toxina botulínica Terapia de terceira linha para casos refratários A
Estrogênios vaginais Recomendados na BH associada à atrofia urogenital A

Referências

  1. FEBRASGO - Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Protocolo FEBRASGO nº 51: Síndrome da Bexiga Hiperativa. 3ª ed. São Paulo: FEBRASGO, 2025.
  2. Haylen BT, et al. An International Urogynecological Association (IUGA)/International Continence Society (ICS) joint report on the terminology for female pelvic floor dysfunction. Int Urogynecol J. 2010.
  3. Peyronnet B, et al. A comprehensive review of overactive bladder pathophysiology: on the way to tailored treatment. Eur Urol. 2019.
  4. Davila GW, Neimark M. The overactive bladder: prevalence and effects on quality of life. Clin Obstet Gynecol. 2002.
  5. Soler R, et al. The prevalence of lower urinary tract symptoms (LUTS) in Brazil: results from the epidemiology of LUTS (Brazil LUTS) study. Neurourol Urodyn. 2018.
  6. Abrams P, et al. Seventh International Consultation on Incontinence-Research Society 2023. Neurourol Urodyn. 2018.

Nota: Este protocolo é um resumo baseado nas diretrizes da FEBRASGO e deve ser adaptado ao contexto clínico individual. A síndrome da bexiga hiperativa é uma condição crônica onde o objetivo principal é o controle dos sintomas e melhora da qualidade de vida.

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