Protocolo de Incontinência Urinária Não Neurogênica

Elaborado por: Dra. Ana Paula de Oliveira Pinto

Atualizado em: Janeiro de 2025

Fonte: PCDT Ministério da Saúde - Portaria Conjunta SCTIE/SAES/MS N° 1, de 09/01/2020

Introdução

A Incontinência Urinária (IU) refere-se à perda involuntária da urina relatada por um indivíduo. As causas não neurogênicas incluem:

Incontinência Urinária de Esforço (IUE)

Ocorre durante esforço físico, atividade esportiva, espirros ou tosse. Resulta de deficiência no suporte vesical e uretral pelos músculos do assoalho pélvico ou fraqueza do esfíncter uretral.

Incontinência Urinária de Urgência (IUU)

Caracterizada por perda urinária associada à urgência miccional. Resulta da hiperatividade do músculo detrusor devido a fatores como infecção urinária ou lesão nervosa.

Critérios de Inclusão e Exclusão

Critérios de Inclusão

  • Adultos (> 18 anos) de ambos os sexos
  • Diagnóstico de IUE, IUU ou IUM (mista)

Critérios de Exclusão

  • População pediátrica (< 18 anos)
  • IU de causa neurogênica

Diagnóstico - Incontinência Urinária de Esforço (IUE)

Anamnese

Aspectos Gerais:

  • Frequência, tipo e horário dos episódios
  • Gravidade (número de perdas, uso de proteção)
  • Grau de incômodo e hábitos miccionais
  • Comorbidades e medicamentos em uso

Aspectos Específicos por Sexo:

  • Mulheres: Ingestão hídrica, cirurgias pélvicas, partos, complicações ginecológicas
  • Homens: Cirurgia prostática, câncer, radioterapia, história familiar

Exame Físico

Mulheres:

  • Avaliação neurológica (mobilidade, cognição, força pélvica)
  • Exame abdominal e IMC
  • Avaliação de prolapso e atrofia vaginal
  • Observação de perdas com manobras de esforço

Homens:

  • Presença de distensão vesical
  • Tônus do esfíncter anal e reflexo bulbocavermoso
  • Observação de perda com bexiga cheia e aumento da pressão intra-abdominal

Diário Miccional

Método simples e útil que avalia rotina urinária e perdas. Deve ser realizado entre 2 a 7 dias. Monitora a resposta e eficácia do tratamento, além de exercer papel terapêutico ao fornecer ao paciente uma visão do comportamento da bexiga.

Exames Complementares

Exames Básicos:

  • Exame de urina (caracteres físicos, elementos e sedimentos)

Mulheres (conforme indicação):

  • USG de trato urinário
  • Cistoscopia
  • Uretrocistografia
  • Estudo urodinâmico

Homens (conforme indicação):

  • Urocultura (pré-cirúrgico)
  • Creatinina e PSA
  • Estudo urodinâmico (pós-prostatectomia)
  • Uretrocistografia retrógrada e miccional

Diagnóstico - Incontinência Urinária de Urgência (IUU)

Anamnese

  • Urgência miccional - desejo súbito e inadiável de urinar
  • Frequência aumentada - mais de 8 micções diárias
  • Noctúria - com ou sem incontinência de urgência associada

Exame Físico

Mulheres:

  • Exame da região pélvica
  • Exame neurológico sumário (marcha, sensibilidade perineal)
  • Exame ginecológico (atrofia urogenital, prolapso)
  • Teste de esforço em posição ortostática

Homens:

  • Toque retal para avaliação prostática
  • Avaliação das condições do assoalho pélvico

Exames Complementares

Exames Básicos:

  • Exame de urina, urocultura e antibiograma
  • Creatinina e glicose

Estudo Urodinâmico (quando indicado):

  • Sintomas não explicados apenas por hiperatividade primária
  • Falha do tratamento inicial
  • Resíduo pós-miccional significativo
  • Cirurgias prévias do trato urinário inferior
  • Suspeita de doenças neurológicas
  • Sintomas dolorosos sugerindo cistite intersticial

Tratamento

Conduta Conservadora - Primeira Escolha

Incontinência Urinária de Esforço (IUE)

  • Mudanças de estilo de vida (dieta, atividade física)
  • Adequação da ingestão de líquidos
  • Cessação do tabagismo e cafeína
  • Tratamento da constipação
  • Treinamento dos músculos do assoalho pélvico (TMAP)
  • Biofeedback como primeira escolha nos primeiros 12 meses

Incontinência Urinária de Urgência (IUU)

  • Condutas equivalentes ao tratamento da IUE
  • Biofeedback e estimulação elétrica
  • Medicações anticolinérgicas ou β3-agonistas quando indicado

Importante: O tratamento deve ser realizado considerando o tipo específico de incontinência urinária (IUE, IUU ou mista).

Fluxograma de Conduta

flowchart TD A[Paciente com queixa de IU] --> B{Avaliação inicial
e diário miccional} B --> C[Excluir infecção urinária
e causas neurogênicas] C --> D{Definir tipo de IU} D --> E[IUE - Esforço] D --> F[IUU - Urgência] D --> G[IUM - Mista] E --> H[Tratamento conservador:
TMAP, biofeedback,
mudanças comportamentais] F --> I[Tratamento conservador:
TMAP, biofeedback,
estimulação elétrica] G --> J[Tratar componente
predominante + medidas gerais] H --> K{Resposta em 3 meses?} I --> L{Resposta em 3 meses?} J --> M{Resposta em 3 meses?} K -->|Sim| N[Manutenção e acompanhamento] K -->|Não| O[Avaliar cirurgia ou outras opções] L -->|Sim| P[Manutenção e acompanhamento] L -->|Não| Q[+ Medicação ou outras terapias] M -->|Sim| R[Manutenção e acompanhamento] M -->|Não| S[Reavaliação diagnóstica
e tratamento combinado]

Monitoramento

  • Avaliação pós-tratamento conservador: Pelo menos uma avaliação após conclusão das medidas fisioterápicas básicas (tempo mínimo de 3 meses)
  • Avaliações periódicas: Seguimento regular conforme critério do médico assistente
  • Reavaliação: Necessária quando há falha na resposta ao tratamento inicial ou surgimento de novos sintomas

Classificação CID-10

Código Descrição
R32 Incontinência urinária não especificada
N39.3 Incontinência de tensão ("stress")
N39.4 Outras incontinências urinárias especificadas

Referências

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SCTIE/SAES/MS N° 1, de 09 de Janeiro de 2020. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Incontinência Urinária Não Neurogênica.
  2. FEBRASGO - Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Diretrizes para Diagnóstico e Tratamento da Incontinência Urinária. São Paulo: FEBRASGO, 2024.
  3. Haylen BT, et al. An International Urogynecological Association (IUGA)/International Continence Society (ICS) joint report on the terminology for female pelvic floor dysfunction. Int Urogynecol J. 2010.
  4. Abrams P, et al. The standardisation of terminology of lower urinary tract function: report from the Standardisation Sub-committee of the International Continence Society. Neurourol Urodyn. 2002.

Nota: Este protocolo é um resumo baseado no PCDT do Ministério da Saúde e deve ser adaptado ao contexto clínico individual. A versão completa corresponde à Portaria Conjunta nº 01 de 09 de janeiro de 2020.

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